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Setembro Amarelo: Desigualdade Social e Racial

Setembro Amarelo: Desigualdade Social e Racial, e a Importância do Ativismo do

Enfermeiro na Saúde Mental e Atenção Psicossocial para Combater Essas Disparidades e

Promover a Equidade Étnico-Racial prática e pedagógica.


Setembro é o mês da conscientização sobre a prevenção do suicídio, conhecido como

Setembro Amarelo, e sua relevância não pode ser subestimada. No entanto, devemos

lembrar que as questões que permeiam a saúde mental, em especial para a população

negra no Brasil, não podem ser abordadas em apenas um mês, mas sim de forma contínua,

nos espaços educacionais, na saúde, na justiça e em todos os lugares onde resida o

respeito e a ética pela vida. É crucial direcionar nossa atenção para um aspecto muitas

vezes negligenciado, mas profundamente interligado com a questão do suicídio: as

questões socioeconômicas, o racismo e a desigualdade racial e social, que contribuem para

a incidência de adoecimento psíquico na saúde mental da população negra no Brasil.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE) apontam os impactos sobre a realidade que muitos

enfrentam diariamente. O racismo estrutural no Brasil é uma forma de violência que afeta a

saúde mental de maneira significativa. Segundo o IPEA, as pessoas negras são mais

suscetíveis a experiências de discriminação racial, o que contribui para altas taxas de

transtornos depressivos, sofrimento psíquico e emocional. De acordo com o IBGE, a

população negra compõe cerca de 56% do total no Brasil. No entanto, quando olhamos

para as estatísticas de suicídio, notamos uma discrepância alarmante. Ressalto que, para

cada vez mais termos dados que apontem o sofrimento psíquico e iniquidades em saúde

por racismo, é de suma importância o registro do quesito raça/cor, e os casos de vidas

negras que estão sendo afetadas pelo racismo, notificadas no Sistema Único de Saúde. O

antirracismo na saúde não é uma opção, é um compromisso ético que todos nós devemos

exercer em um país onde pessoas num passado recente cometeram suicídios por geofagia

( ato de cometer terra) e passaram pelo sofrimento do banzo, ( depressão psicológica de

pessoas escravizadas) e viveram o sofrimento de terem seus corpos escravizados. Essa

abolição inconclusa é um fato em nossa sociedade que implica a criação de políticas

públicas específicas para discutir fatores sociorraciais interligados a casos de suicídio no

Brasil. O racismo não só impacta a saúde mental, mas também as oportunidades

educacionais e econômicas das pessoas negras, o que pode aumentar o risco de

isolamento social, desmotivação e sentimentos de tristeza, exclusão e incapacidade.

Porém, entre essas nuances, existe uma herança cruel que ameaça a vida dessas pessoas:

a desigualdade Social e Racial que vem de décadas de escravização neste país. Ao

refletirmos sobre essa herança traumática diaspórica, desvelando a realidade que aponta o

porquê historicamente a população negra vive à margem do acesso a serviços básicos,

baixa escolaridade e oportunidades econômicas, devemos lembrar que a luta contra o

suicídio não é apenas sobre conscientização, mas também sobre intervenção de saúde

pública e letramento racial. A prevenção do suicídio no Brasil não pode ser eficaz sem

abordar as raízes profundas da historicidade e mazelas sociais. Devemos lembrar que a

luta contra o suicídio não é apenas sobre conscientização, mas também de

responsabilização de diversas esferas que precisam se comprometer com a pauta

transformadora no sistema. Devemos nos comprometer a combater a desigualdade em

todas as suas formas, para que todas as pessoas tenham a oportunidade de viver

dignamente e tenham acesso garantido aos seus direitos básicos. É inegável que pessoas

negras e pardas compõem a maioria da população, e esses grupos enfrentam desafios

específicos em relação à saúde mental. Taxas mais altas de transtornos de ansiedade e

depressão são observadas entre pessoas negras e pardas em comparação com a

população branca. Além da questão racial, o gênero também desempenha um papel

importante nas disparidades em saúde mental. As mulheres negras são mais propensas a

relatar sintomas de sofrimento de depressão, terem seus corpos medicalizados e

sofrimentos psíquicos tamponados. O racismo é uma força subterrânea que permeia muitos

aspectos da vida das pessoas racializadas. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica

Aplicada (IPEA) destacam que o racismo sistêmico afeta negativamente a saúde mental

desses grupos, aumentando o risco de transtornos psicológicos. Lembremo-nos que a

discriminação racial não se limita a insultos verbais ou violência física; ela também se

manifesta de maneira mais sutil que leva a um ciclo de sofrimento silencioso como

oportunidades negadas, silenciamento de pessoas negras, na barreira de acesso,

estigmatização e fetichização do corpo negro nas atribuições de maior esforço físico no

mercado de trabalho, em sua sexualidade, o olhar míope para a solidão da mulher negra

que também é institucional dentre outras situações que os sentencia ao sofrimento

emocional criando uma carga psicológica adicional para as pessoas racializadas,

contribuindo para o adoecimento psíquico. É crucial reconhecer que as disparidades em

saúde mental não são determinadas apenas pela genética ou comportamento individual e

familiares. Elas são moldadas por fatores sociais, econômicos e políticos, incluindo o

racismo sistêmico. Neste contexto, a conscientização sobre a importância do antirracismo, a

promoção da igualdade de gênero e a criação de políticas públicas, letramento racial e

pesquisas que abordem as desigualdades em saúde mental são fundamentais. Somente

assim podemos garantir que pessoas negras entendam o sintoma de seu sofrimento

emocional, que não se pode diagnosticar como patológico, e protagonizem em suas vidas a

importância de cuidar de sua saúde mental e alcançar o autoconhecimento e

reconhecimento de que são pessoas com toda importância de viver uma vida em que sua

sanidade seja prioridade. Portanto, não somente neste Setembro Amarelo, mas

diariamente, nós, em especial profissionais de saúde, lembremos da importância de

promover o diálogo aberto sobre fatores que adoecem e são propensos ao risco de suicídio

e transtornos psicológicos. Não devemos esquecer que, para muitos, esse diálogo deve ser

enriquecido com uma compreensão profunda das questões raciais. Precisamos construir

uma sociedade mais justa, onde o racismo seja combatido em todas as suas formas, e onde

todos tenham equidade de oportunidades para prosperar e vivenciar seja direitos humanos.

À medida que nos unimos para apoiar o Setembro Amarelo, também devemos abraçar a

causa da justiça racial e trabalhar incansavelmente para eliminar as barreiras que

contribuem para o risco de suicídio. O caminho para a prevenção do suicídio na minha ótica

é a promoção da saúde mental que deve ser inclusivo além dos dispositivos, acessando a

todas as comunidades, pessoas, periferias e ruas. É necessário que seja entendida como

uma política pedagógica ético-racial. Neste movimento científico ativista, enquanto

enfermeira negra especialista em saúde mental, destaco o papel fundamental dos

enfermeiros em saúde mental neste movimento, acolhendo e promovendo diálogos e

espaços de escuta que transcendem a instituição estrutural do dispositivo de saúde em

combate à opressão sistemática do Racismo na saúde. É aqui que entra o ativismo do

enfermeiro em saúde mental e sua atuação psicossocial em romper com o jaleco

protocolado e alcançar comunidades, se apoderar de seu protagonismo em levar

informação a população. O enfermeiro em saúde mental tem o poder de criar espaços

seguros para discussões sobre saúde mental e racismo. Eles podem desempenhar um

papel fundamental na detecção precoce de sinais de sofrimento emocional e na intervenção

desse acolhimento construindo pontes entre as comunidades e os serviços de saúde,

reduzindo as barreiras que muitas vezes impedem o acesso a cuidados de qualidade. Eles

podem liderar iniciativas para promover a igualdade racial no sistema de saúde, em prol da

saúde mental da população negra.

Aos companheiros, busco fortalecer que Unamos nossas vozes e ciência para intervir por

mudanças significativas e para reconhecer a atuação papel vital e multifacetado dos

enfermeiros em saúde mental nesse movimento em que a Organização Mundial de Saúde

enfatiza a importância de sistemas de saúde mental inclusivos e acessíveis. Portanto, uma

enfermagem antirracista que visa como prioridade o acolhimento, promoção e educação

étnico-raciais em saúde que contribui para combater essas disparidades adoecedoras que

ainda se perpetuam na sociedade brasileira. Assim, caminhamos juntos na busca por uma

sociedade mais justa, enfermagem antirracista onde a população lida como marginalizadas

e isso tem a responsabilidade de seu escasso acesso a saúde, possam viver com

dignidade e terem garantidos seus direitos básicos e saúde equânime.

Que este Setembro Amarelo seja um lembrete de que o cuidado com a saúde mental deve

ser acessível a todos, independentemente de sua raça, cor ou gênero e um olhar mais

sensíveis para as intersecçoes que os difere. Que a valorização da vida siga sendo um

compromisso diário e que tenhamos como insumo principal a disponibilidade de escuta

onde não haja espaço para diagnóstico moral, e sim o olhar comprometido para as

questões que de fato devemos intervir, sermos rede de apoio e no que podemos contribuir

para a preservação da sanidade psíquica.


Texto: Debora Guedes Bastos


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